O temor de um fracasso nas negociações com a União Europeia faz o Reino Unido ver ameaça de uma “tempestade financeira”
25/09/2018 08:39 em Notícias

No fim de agosto, pescadores franceses e britânicos se engalfinharam a 12 quilômetros da baía do Sena, em uma luta por um espaço na pesca de vieiras. O episódio serviu como sinal de alerta. Programado para acontecer dentro de seis meses, o Brexit, divórcio entre o Reino Unido e a UE (União Europeia), já tem consequências concretas nos dois lados do Canal da Mancha, a começar pela desaceleração econômica e a perspectiva de uma “tempestade financeira”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A disputa violenta pelo direito de pescar em águas comunitárias aconteceu porque pescadores franceses são obrigados a observar a regulamentação europeia, que limita a pesca de vieiras entre 1° de outubro e 15 de maio. Os pescadores britânicos não respeitam essa norma.

Dois anos e três meses depois do plebiscito em que 52% dos britânicos optaram pela ruptura entre Londres e Bruxelas, as negociações para o divórcio paralisaram os demais assuntos da agenda bilateral – incluindo a disputa pelas vieiras. Na quinta-feira, dirigentes da UE lançaram um ultimato à premiê do Reino Unido, Theresa May.

No início das negociações, Bruxelas fixou três princípios que não poderiam ser violados: Londres teria de pagar a fatura do divórcio, cerca de € 50 bilhões; expatriados dos dois lados deveriam receber tratamento digno; e a Irlanda, país-membro da UE, não poderia voltar a ser dividida da Irlanda do Norte, território britânico, por uma fronteira.

Se para as duas primeiras questões houve acordo, para a terceira a situação continua problemática. A proposta europeia é de que Londres aceite manter a Irlanda do Norte na área de mercado livre. May não aceita, mas tampouco oferece uma proposta convincente para resolver o impasse irlandês.

O resultado é que as chances de um “Brexit duro”, sem acordo entre Londres e Bruxelas, crescem dia a dia. Se isso acontecer, analistas preveem uma “tempestade financeira”, que causaria um choque bem além da Europa. Uma crise aguda na economia britânica, a sexta maior do mundo, teria impacto sistêmico no crescimento mundial.

Parte da tormenta deverá acelerar um movimento em curso: a fuga de investidores da City, o centro financeiro britânico. Nesta semana, o JPMorgan anunciou a disposição de transferir entre mil e 4 mil empregos para o continente. Segundo o Banco da Inglaterra, 10 mil postos de trabalho em serviços financeiros poderão ser transferidos a partir do primeiro dia de Brexit.

Na sexta-feira, a Airbus disse que uma separação sem acordo a faria deixar o Reino Unido. Economistas do banco Barenberg citados pela rede CNN estimam que a economia britânica perdeu até US$ 46 bilhões em produção entre o primeiro quadrimestre de 2016 e o primeiro de 2018. O desemprego britânico é o menor em décadas, mas a média salarial caiu desde o plebiscito.

Na segunda-feira, a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, advertiu que um divórcio sem acordo terá “custos substanciais” para a economia do Reino Unido, muito piores do que as perspectivas de crescimento atuais, de 1,5%, em 2018 e 2019: -0,8% e 0,6%, respectivamente. Analistas da consultoria PwC estimam que o custo da perda de atividade vai chegar a € 129 bilhões, com 950 mil empregos a menos até 2020 – o que representa uma taxa de desemprego entre 2% e 3% maior que a atual.

Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), um desligamento sem acordo de livre-comércio entre UE e Reino Unido deve causar perdas de € 7,2 bilhões em barreiras aduaneiras que castigarão os exportadores britânicos.

Somadas, as consequências econômicas significam mais pobreza no Reino Unido. Relatório do Tesouro britânico indica que cada família deverá perder em média € 5,4 mil por ano em função do divórcio, porque o PIB do país será até 6% menor do que poderia ser em 2030.

O cenário negativo para todos os lados acontece, segundo o ex-ministro britânico Denis MacShane, porque o impasse em torno do Brexit paralisou as instâncias políticas britânicas. “Toda a política está bloqueada e o governo não pode fazer nada”, diz o ex-ministro, opositor do divórcio. “Creio que o país vai em direção ao abismo se continuarmos com o Brexit.”

As dificuldades que Theresa May vem enfrentando nas negociações com Bruxelas sobre a saída do Reino Unido da União Europeia colocaram ainda mais em xeque sua permanência no cargo. Pressionada pela ala mais radical do Partido Conservador, May pode perder o apoio do Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês), da Irlanda do Norte, cujos 10 deputados são cruciais para o governo de coalizão.

Fonte: O SUL

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